Capítulo do livro “O Pirata Escarlate”
José Antônio Prates
Bom dia, senhor brasileiro! Meu nome é cidadão e venho lhe oferecer cultura. Represento a continuação de uma sociedade de cavalheiros, uma geração de homens que se atreveram a organizar-se para concretizar o sonho permanente da democratização da informação. Represento os pergaminhos das antigas civilizações, e, antes deles, estive presente nas mensagens das cavernas.
Sou a Inconfidência Mineira e a Revolução Francesa, o caminho da Grande Muralha e a Revolução Cultural Chinesa e a resistência dos povos latino-americanos, comandados por Túpac Amaru e pelos Amautas. Se necessidade houver de justificar, sou aquele que se rebela contra o monopólio dos capitalistas da sabedoria, da concentração do poder do saber, contra o monopólio do estar bem informado, do privilégio de possuir conhecimento, da condição estratégica de estar atualizado como dono do saber.
Eu sou aquele que leva todos os dias, na mochila, a mais poderosa de todas as armas e recebe todos os preconceitos; aquele que aguarda pacientemente pelo seu turno, a atenção do possível subscritor desinformado, para demonstrar o óbvio; aquele que não pode ter medo de cachorro, para levar o pão do espírito ao maior número de pessoas. Em geral, quando escutam falar quem sou, já preparam todas as respostas e objeções, ou me antecipam o não, antes de ver-me, o que me obriga a mil peripécias para abrir portas, ouvidos e corações, e me coloca na posição dos melhores e mais criativos atores. Em geral sou tratado com desdém, desde a coluna cultural dos jornais até as seções humorísticas dos programas de TV.
Entretanto sou o testemunho e a testemunha da história: estou na linha de frente de todos os sistemas, vivendo o quadro da economia capitalista em seu flagrante e nada discreto charme de sedução e promessa de ascensão social; vivo melhor que ninguém a reação popular em todas as camadas, aos pacotes, planos de estabilização, controle de preços, etc., e sinto-os melhor que qualquer economista, sociólogo ou analista financeiro. Se, por acaso, me consultassem ao final de cada dia ou semana, poderiam contar, no conjunto, com o melhor instituto de pesquisa social e econômica de todos os tempos.
Sou Jesus, Buda, Maomé e Allan Kardec, vivendo e expondo-os pela paz. Sou Paulo de Tarso, levando a boa nova aos coríntios, efésios, romanos e tessalonicenses. Sou Espártaco, Lumumba, Amílcar Cabral e N´Krumah, Zumbi dos Palmares e Che Guevara, ingênua e docemente cantando por uma paz que só se faz, tijolo por tijolo, quando se tem um grande ideal. Sou Thomas Jefferson, Tiradentes e Marat, falando de república, liberdade e democracia. Sou o Marechal Rondon, Colo-Colo e Anahi afirmando que, apesar de poucos e mal montados, somos o povo e o exército da pátria grande. Sou San Martin, Arguedas, e Artigas, gritando que a América sempre existiu antes dos americanos. Sou a alegria séria de Charles Chaplin, Mr. Hardy e Buster Keaton. Sou muitas vezes aquele a quem toda a chance e oportunidade cidadã lhe foi negada, não restando outra condição a não ser fazer, a cada dia, a trilha dura e maravilhosa de tocar de porta em porta a esperança de ser cidadão e descobrir, todos os dias, que os sonhos de sua atividade de democratizar a informação, a cultura e o conhecimento, estão ainda no nosso mundo, apenas no frágil começo. Que o povão, que ainda não teve o acesso ao pão de trigo, como pode pensar no pão do espírito?
Por isso sou o partisan da informação. Sou o vendedor de enciclopédias.
Sou eu quem, todos os dias, leva a máquina do tempo para quem quiser penetrar nas entrelinhas da história para entender o presente o produzir o futuro.
Faço, todos os dias, da minha atividade uma prece e um exercício de cidadania, de criatividade, de formação permanente, de atualização rápida frente aos desafios do caos econômico, nessa escola de liberdade sem quadro e sem paredes, onde tenho grande responsabilidade com milhares de pessoas. Sou consciente disso e assumo com prazer e gratidão esta responsabilidade que me honra e dignifica nesta condição diária de ser um educador-educando para um educando-educador. Sou Paulo de Tarso outra vez.
Sou partisan da liberdade, guerrilheiro da justiça, profeta do óbvio, peregrino da esperança, no deserto das cidades.
Sou cada um dos desabrigados, dos sem-terra, dos abandonados, desempregados e excluídos do meu país.
Sou um menino de rua que todos os dias tem que enfrentar a poderosa maré adversa. Que tem um medo danado, mas que não reluta em enfrentar a tudo, todos os dias, cobrando de todos o pagamento da dívida que a sociedade tem com ele.
Sou a vida, a morte e o depois da morte do meu povo.
Sou o aparelho de reencarnação de Paulo de Tarso Celestino, Eduardinho e Honestino Guimarães, para expressar a mensagem de rebeldia e esperança das multidões populares.
Sou a voz de Vandré. Sou o índio Darcy Ribeiro, o aluno Paulo Freire e o Tropeiro Zé Paulino.
Sou o bandido da luz vermelha e o torturador incomodado pela imagem do torturado, o exterminador da baixada, o corruptor e o corrupto da impunidade do meu país. Sou o bem e o mal, da roda contínua da vida.
Sou o povo brasileiro dividido e multiplicado em milhões...
Sou o vendedor de enciclopédias...